segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O Cabelo e a Arte de Libertar

Alê Estrela

Conceito, beleza, história e poesia. Estou falando de uma mulher que consegue reunir diversas qualidades e possui a missão de libertar, quebrar barreiras e transformar vidas. Alê Estrela (41), formada em administração, traz em sua história elementos importantes para se pensar o negro na sociedade e os diversos estigmas construídos.

Fomentando as questões afirmativas, elevando o nível de consciência pessoal e adotando mecanismos de contraposição as ditaduras de beleza é o seu trabalho. Sua missão talvez seja transformar o mundo em um espaço diversificado e realmente igualitário.

Estas questões já nascem com o negro, pois carrega consigo as marcas do preconceito, da violência, do pecado. Alê desde cedo teve que se deparar com diversos monstros sociais que acompanharam na infância e se perdurou por alguns anos.

“Tive que desconstruir muitos monstros familiares, diversos problemas e desencontros por conta das ausências paternas. Porém, acredito que estas dificuldades enfrentadas me tornaram essa mulher que sou hoje. Alegre, confiante, determinada”, declara.

O cabelo por estar intimamente ligado a nossa essência transcorre estes momentos da história sem muitas mudanças, até porque Alê estava ligada a outras questões, porém, encarando o universo do trabalho a padronização da beleza européia falou mais alto.

 “Já adulta eu fui trabalhar numa empresa de telecomunicação e por conta disso estudei administração [...] e eu me vi obrigada, claro que foi uma escolha minha, mas para estar ocupando aquele lugar na empresa seria necessário alisar meu cabelo. Para o meu chefe eu tinha que possuir uma aparência bacana por conta do cargo que ocupava e eu precisaria estar com o cabelo liso. No princípio ele apenas ponderava, até que um dia se tornou uma obrigação”.

Este primeiro momento foi o passo inicial para uma prisão estética. Com o passar dos dias, quando Alê não estava com seu cabelo totalmente liso, era motivo de chacotas e risadas. Estava escravizada. “Certo dia minha cabeleireira, que hoje é minha amiga, indagou o por quê eu estava naquele lugar. Então, sabe de uma, resolvi mudar, aceitar-me”.

Sabemos que esse processo de transição não é fácil. O olhar-se no espelho todos os dias, passa ser uma terapia de reconhecer-se e admirar-se. Mas, enfim, as coisas deram certo.

Cabelo e Arte

Alinhando os conceitos para Cabelo e Arte, e colocando-se num lugar político, Alê ao se entender e se construir como uma mulher negra, repleta de qualidades, sonhos e determinação cria seu próprio espaço de libertação e empoderamento da mulher.


“Tudo isso se iniciou em um salão no qual tinha o costume de frequentar e cuidar dos meus cabelos toda semana. Já havia construído uma certa afinidade com a dona e cabeleireira, um certo dia ela me aconselhou a fazer um curso para me especializar na área [...] Este momento parece que abriu uma janela na qual já estava inserida e surgiu a Alê  Cabeleireiro [...] mas depois de uma viagem a São Paulo para estudar melhor a industria de cosmético brasileira, nasce Alê Estrela, Cabelo e Arte”.

Trabalhar apenas com cabelo na perspectiva afro é pouco, para Ela o mais importante era o conceito indentitário por detrás deste cuidado e toque capilar. Além disso, ao unir o conceito da arte aos cuidados com o cabelo, a estrela de Alê brilhou mais forte ao perceber que esta indústria que dita os padrões de beleza não a representa.

Sempre indagando os padrões, Alê reflete o mercado afro como um espaço de disputa e padronização. “Existe o liso perfeito e quando conseguimos vencer isso, caímos na ditadura dos cachos perfeitos. Saímos de uma indústria escravista e caímos em outra”.


 “O que me norteia e encanta é essa coisa do criar e as possibilidades que podemos fazer com o cabelo. Sempre ouvi falar que temos limitações com o nosso fio, já eu acredito que as limitações existem com qualquer fio [...] Então eu penso, é claro que podemos fazer arte em nosso cabelo! O Alê Estrela é desse lugar sabe. A gente pode brincar, raspar, posso ter um lado maior o outro menor, posso ter cor e o meu cabelo é o seu cabelo crespo”.

Militância

“Nós estamos fazendo militância o tempo todo, até sem perceber. E eu brigo todos os dias. A industria de beleza só pensa na escravidão, eu tento ultrapassar esses padrões. O fato de você vir aqui e sentar na minha cadeira e não fazer nada, apenas lavou e hidratou, é gratificante para mim. Eu posso não ter ganho o seu dinheiro, mas eu ganhei um pedaço de você que para mim é importante”.

Sem fórmulas milagrosas o trabalho de entender-se naturalmente belo compõe um processo de desconstrução de um sujeito e a construção de algo melhor, equiparado por um debate político ligado intimamente a indentidade quanto sujeito.

“O cabelo me abriu as portas para me entender de uma outra maneira. O mais importante é o fio e a beleza que está em tudo, inclusive em cada postura. Acredito que  a nossa identidade é construída e que precisa ser reafirmada todos os dias respeitando a nós mesmos” conclui.


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